ORGANIZAÇÃO: GABRIELA RUIVO | REVISÃO: RITA DA NOVA | TEXTOS: MARGARIDA AZEVEDO, FILIPA MOTA NESBITT E ANA PORTOCARRERO
Este mês contamos com três viagens em que o meio de transporte tanto pode ser um comboio como a nossa fantasia indomável. Estejam de férias, a trabalhar ou em viagem propriamente dita, estes três mergulhos no imaginário de cada autora irão com certeza conduzir-vos a bom porto. Apertem, pois, os cintos, recostem a cadeira e inspirem cada palavra. O avião está prestes a descolar.
Boas férias (se for o caso) e boas leituras,
Clube das Mulheres Escritoras
Geometrias Ocultas
Por Margarida Azevedo
Descobri, naquela planície sem fim, que há viagens que só acontecem a quem aceita perder-se primeiro, e há caminhos que se escondem diante dos olhos de quem deixou de levantar a cabeça para o céu.
Carlota acredita que há lugares onde o tempo caminha mais devagar e as pessoas ainda ouvem aquilo que o vento diz. Ninguém lhe sabe dizer onde começa verdadeiramente o Alentejo. Uns dizem que é depois da última curva da autoestrada, outros juram que começa quando o céu se torna maior do que a terra.
Comprei um bilhete sem destino muito definido, desci na primeira paragem que me pareceu suficientemente longe da cidade e comecei a caminhar. Levo apenas uma mochila, uma garrafa de água, um caderno por estrear e a vontade de descobrir qualquer coisa que não sei nomear. Sinto há muito tempo a vida apertada como uma camisa vestida ao contrário. Preciso de espaço e no Alentejo o espaço parece existir em excesso.
O caminho estende-se diante de mim. À minha volta, o calor faz tremeluzir a paisagem e o cheiro da esteva mistura-se com o das ervas secas. Há sobreiros dispersos, oliveiras antigas e pequenas casas caiadas. Senti, pela primeira vez, o estranho conforto de ser apenas uma pequena presença.
Enquanto caminho, reparo que quase todos os postes elétricos sustentam ninhos de cegonhas. Algumas permanecem imóveis, outras ajeitam as penas, mas nenhuma parece preparar-se para partir. Recordo-me das aulas de Ciências Naturais, onde aprendi que, quando o verão termina, aquelas aves iniciam uma longa viagem em direção a terras mais quentes. No entanto, ali permanecem imóveis, voltadas para sul, como quem espera uma ordem que nunca chega, como se o mundo inteiro acabasse nesta planície.
Encontro um pastor sentado à sombra de uma oliveira. Tem um chapéu gasto pelo sol e observa tranquilamente o rebanho que pasta ao longe. Cumprimento-o e perguntou-lhe se sabe por que razão há tantas cegonhas.
O homem sorri antes de responder.
— Porque já não migram.
— Mas porquê?
Ele olha demoradamente para o céu, procura uma resposta escrita entre as nuvens.
— Há quem diga que esqueceram o caminho.
Sorrio e digo-lhe:
— Os animais não esquecem.
Ele mantém-se sério:
— Também o meu pai dizia isso sobre as pessoas.
A resposta ficou a ecoar na minha cabeça muito depois de nos despedirmos. Continuo a andar, deixando que o silêncio do Alentejo ocupe todos os meus pensamentos. É um silêncio diferente daquele a que estou habituada. Não é ausência de sons; é uma presença constante feita de vento, de insetos escondidos nas ervas, de canto distante de um pássaro e do próprio respirar da terra.
Sem me aperceber, afasto-me da estrada principal. Sigo um carreiro aberto entre os campos, convencida de que voltarei facilmente ao caminho, mas quando decido regressar tudo me parece igual. Os sobreiros repetem-se, os muros de pedra desenham linhas semelhantes e o horizonte mantém-se perfeitamente alinhado em todas as direções.
Tiro o telemóvel da mochila. Não há rede. Procuro a bússola que o avô me ofereceu quando era criança, mas a agulha roda incessantemente, incapaz de escolher um rumo. Sinto um medo antigo, quase infantil. O medo de desaparecer num lugar tão grande que ninguém dará pela minha ausência.
Sento-me numa pedra e deixo que o coração desacelere. O calor começa finalmente a diminuir e uma brisa suave atravessa os campos. Ouço um bater de asas. Levanto os olhos e vejo uma cegonha levantar voo. Depois outra. Depois mais algumas. Não voam alto nem parecem fugir de alguma coisa. Limitam-se a deslizar lentamente sobre a planície, desenhando um percurso invisível.
Sem saber porquê, levanto-me e começo a segui-las. Há uma geometria oculta naquele voo, uma ordem antiga que não precisa de mapas nem de bússolas. Caminho durante muito tempo. O sol desce lentamente e tinge a paisagem de cobre. À medida que a luz desaparece, o céu começa a encher-se de estrelas, tão numerosas que me parece impossível nunca as ter visto daquela forma. As cegonhas continuam o seu voo tranquilo e, por um instante, tenho a estranha sensação de que não seguem a terra, mas sim o céu. É então que compreendo que talvez nunca tenham esquecido o caminho. Talvez as pessoas já não olhem para cima.
A ideia parece-me tão simples que me emociona. Penso nas cidades iluminadas, nos ecrãs constantemente acesos, nas vidas medidas ao minuto e nos mapas digitais que nos dizem sempre para onde virar. Percebo que há muito que deixámos de confiar no horizonte, nas árvores, no nascer do sol ou na posição das estrelas. Trocámos a observação pela pressa.
Quando encontro uma pequena ermida perdida entre sobreiros, a Lua já ilumina os muros caiados. Sento-me junto à porta, demasiado cansada para continuar. Uma mulher muito idosa abre a porta como se já esperasse por mim.
— Perdeste-te? — pergunta-me com um sorriso tranquilo.
Penso durante alguns segundos antes de responder.
— Julgava que sim.
A mulher serve-me um copo de água fresca.
— Quem se perde verdadeiramente é quem nunca sai do mesmo lugar.
Adormeço para acordar cedo. O céu começa a clarear e uma longa fila de cegonhas cruza lentamente o horizonte, seguindo para sul. Pela primeira vez desde que cheguei ao Alentejo, vejo-as partir. Esboço um sorriso em silêncio, convencida de que não é coincidência. Nunca deixaram de migrar, apenas esperavam que alguém voltasse a reparar nelas.
Encontro facilmente a estrada de regresso. Parece impossível ter andado perdida, mas trago agora uma serenidade que não possuía quando comecei a viagem. Guardo a bússola no fundo da mochila sem sequer verificar a direção. Já não preciso dela.
Quando regresso a casa, perguntam-me o que descobri no Alentejo. Respondo apenas que aprendi uma coisa muito simples: viajar nem sempre é chegar a um lugar diferente, às vezes é reaprender a olhar para o mundo com tempo suficiente para perceber que até as cegonhas nos podem ensinar o caminho. Descobri, naquela planície sem fim, que há viagens que só acontecem a quem aceita perder-se primeiro, e há caminhos que se escondem diante dos olhos de quem deixou de levantar a cabeça para o céu.
Ovos em Flor
Por Filipa Mota Nesbitt
Emocionei-me de sorriso rasgado por esta boa partida do destino. Não só me deu uma crónica, como sentou ao meu lado uma versão da Amélia que se apresentaria em minutos na Bertrand de Aveiro, a terra dos ovos-moles.
Segui na estação do Oriente, em exercício de excitação e de sociologia aplicada.
A primeira apresentação a Norte, e quem me conhece sabe que entre as partes prefiro sempre o mais fresco, o mais simpático, o que sobe e o que se come de olhos fechados, pela degustação, pela pronúncia e pelo vocabulário, digamos, variado ou rico.
Seguir para norte é sempre uma preferência.
Escolhi o lugar no sentido certo, mas no lado errado.
Gosto de ir à luz da janela, mas calhou-me ir à coxia. Suspeito sempre deste lugar, mas lembrei-me de que me pertence uma bexiga minúscula e de que seria um incómodo levantar-me cinco vezes numa viagem de duas horas para Aveiro. Mas não era só esse o motivo.
Adoro estas boas partidas do destino, e a francesa sentada à minha janela conseguiu distrair-me do meu A boneca de Kokoschka e deliciei-me a observá-la enquanto desacelerava a leitura. Desculpa-me, Afonso, mas sei que me entenderás.
Há lá melhor coisa para um escritor do que observar a inquietude de uma pessoa a comer ovos cozidos. Não há.
Há quem leia, quem durma, quem olhe pela janela, quem se enjoe e quem coma ovos cozidos salpicados com flor de sal à la chef em prato de cartão, vulgo caixa de ovos biológicos. Não uns quaisquer. Ali estava uma adepta da saúde corporal e da vida animal. Um protesto contra os ovos amarelos claros.
Em caixa pequenina e jeitosa, seguiam pequenas lascas de flor de sal. Dada a monstruosidade da trinca, que deixou o pequeno ovo sem cabeça e tronco, e a quantidade que repetia na dose de sódio, esperei que fosse das salinas da Ria Formosa, a Sul. Para seu bem, claro.
Ando um pouco enjoada de ovos, pelo que desviei o olhar algumas vezes da gema que já imaginava colada ao meu palato. Não estava com apetite para aquilo. Somente para a escrita, embora mental. Não consigo escrever no comboio. Os olhares de esguelha para o meu ecrã dão-me taquicardia e as letras não me obedecem em andamento. Parecem atropelar-se pela velocidade do Alfa. Não consigo escrever enquanto as árvores se movem lá fora. Consigo ler e isso é a segunda melhor coisa da vida.
Ela mastigou uma porção generosa de sementes de funcho e contorci-me em feições que não vejo necessidade de descrever. Devo ter feito um ar esquisito, mas ela, como comia virada para o vidro, talvez não me tenha visto no reflexo. Assim espero. Será que viu e que escreve uma crónica sobre mim? Isso dava um belo romance. Crónicas de desconhecidos em espelhos.
Ela deu um golo de meio litro numa garrafa que invejei. Confirmei que o gargalo tinha a abertura perfeita. Não era grande de mais que entornasse num descair de um pescoço, nem pequeno em demasia que nos fizesse cansar de ser um pássaro a bebericar, quando a receita manda beber dois litros e meio de água por dia. Com ou sem sede. Com ou sem vontade.
Folheei mais duas páginas, mas a rapariga não aquietava e eu ficava sem perceber se o miúdo se ia salvar na história da Segunda Guerra Mundial.
Ambos me deixavam ansiosos por um desfecho, mas a senhorita, em princípio, não a encontraria mais, enquanto o livro seguiria comigo. Leio de caneta na mão e caderno aberto. Sempre uma lição, uma inspiração, um talento e uma narrativa a aspirar. Brilhante.
Mas eis que ela tira mais uma caixinha. Muito organizada, a senhorita. Uma caixinha com os comprimidos diários. Uns grandes, outros pequenos. Uns quantos reconheci. Também sou uma rapariga que aposta nos suplementos para o aconchego dos vários défices. Mas tomo-os com água e um a um. Ela não. Uma valente. Todos na língua sobre mastigação. Devo ter feito a mesma cara das sementes de funcho. Estranho, muito estranho.
Devo referir que a rapariga ia um pouco inquieta e indecisa. Eu, como ia sentada na minha nuvem, sentia-me em paz e nada mudou, para além da perceção das histórias que se podem escrever em viagem. É hilariante como as histórias estão por todo o lado. Já dizia o meu professor de crónica, o Rui Cardoso Martins.
Ela recebe um áudio. Uma coisa muito moderna, mas que implica, em comboio lotado, uns auscultadores. Colocou-os e deu risinhos. Para meu deleite, não respondeu por escrito, mas por voz. Em inglês, o que achei estranho porque jurava e mantenho o juramento de que era francesa.
Viajava sozinha e na sua descoberta. Sentia-se muito melhor e ele é que perdia. Sentia-se outra, embora ainda tivesse receios. Mas agora sabia.
Emocionei-me de sorriso rasgado por esta boa partida do destino. Não só me deu uma crónica, como sentou ao meu lado uma versão da Amélia que se apresentaria em minutos na Bertrand de Aveiro, a terra dos ovos-moles.
Em sua homenagem, comi um ovo-mole salpicado de flor de sal.
Os acasos continuam a saber escrever melhor do que nós.
Feng Shui ou lá como se inventa
Por Ana Portocarrero
A de puxo deu um gole de vinho inexistente e começou a pentear o cabelo com um pente inexistente, sem responder. Ficaram assim, frente a frente, em pé, à espera do vento e da água, do movimento artístico da energia.

Estavam sentadas frente a frente. Uma tinha o cabelo preso num puxo tão repuxado que lhe esticava as maçãs do rosto; a outra lutava contra a franja que, teimosamente, lhe tapava a vista.
— Troca de lugar comigo — exigiu a de puxo.
— Porquê?
— Ando a praticar Fing Shui.
— Feng Shui?
— Quem não sabe dizer, inventa. Anda, troca de lugar.
Em silêncio, levantaram-se sem arrastar as cadeiras e sentaram-se frente a frente, tal como estavam, mas ao contrário. Sobre elas tombou um ar pesado, como se as partículas de oxigénio que há pouco viajavam tivessem estagnado num espaço sem gravidade, presas numa rede invisível que não as deixava respirar.
— Tens a certeza de que estás a praticar isto bem? — questionou a da franja, passando a mão pela nuca transpirada.
— Sim, é o equilíbrio dos elementos. Repara, ali temos o fogo, ali a água, ali o ar e nós somos a terra, temos de estar nestas posições.
A outra olhou em volta, mas não viu mais do que quatro paredes cor-de-rosa. Às vezes tinha uma súbita vontade de as lamber, tinham cor de saborosas, de doces. Contudo, no que toca aos elementos, não viu nada.
— Não os encontro, talvez os veja apenas quem pratica Feng Shui.
— Fing Shui. Quem não sabe dizer, inventa.
O som de um pássaro agoniado fê-las olhar para o teto, onde uma pequena clarabóia, lá no alto, bem alto!, deixava cair um feixe de luz esbranquiçado.
— É a tua primeira viagem? — perguntou a de puxo.
— Sim, nota-se muito?
— Depende da tua próxima resposta. O que te apetece fazer?
A da franja mexeu-se na cadeira, qual seria a resposta certa?
— Lamber as paredes — sussurrou, com um suspiro envergonhado, não lhe ocorria mais nada.
A de puxo levou dois dedos aos lábios, fingindo puxar o fumo de um cigarro inexistente.
— Novata! As paredes são amargas. Ajuda-me, vamos pôr as cadeiras na diagonal.
— Feng Shui?
— Fing Shui. Quem não sabe dizer, inventa.
Levantaram-se e colocaram as cadeiras numa diagonal improvisada.
— Já viajas há muito?
— Há tempo suficiente para saber que as paredes são amargas. A primeira vez com cogumelos mágicos não tem grande magia, mas a partir daí… Ah… A partir daí…
Voltou a puxar uma passa no cigarro inexistente e a da franja pôs-se a imitá-la.
— Porque é que estás aqui? — continuou a de puxo.
— Faltam-me as palavras.
— Na vida, em geral?
Mas a da franja já não ouviu, pois naquele momento desenhava-se, em frente aos seus olhos descrentes, uma enorme caneta BIC, tão grande que a obrigava a esticar o pescoço para trás para lhe ver a tampa. A outra reparou.
— Estás a ver alguma coisa?
— Uma… Uma… Uma…
— Caramba, faltam-te mesmo as palavras! — notou, apagando o cigarro inexistente no chão, com o pé.
— Uma… enorme… caneta… BIC.
— Laranja?
— Cristal.
— Hmm. Chique.
Levantou-se e encostou-se a um canto, em pé.
— Deixa-me adivinhar, Feng Shui.
— Fing Shui. Quem não sabe dizer, inventa. Põe-te ali.
A da franja imitou-a, no canto oposto, e reparou que a caneta a seguia, hirta e obediente, competente como uma BIC de verdade.
— Portanto… escritora?
Ela anuiu.
— E tu?
— Teatro.
— As artes…
A de puxo riu-se, sacou a rolha inexistente de uma garrafa inexistente e verteu vinho inexistente para um copo inexistente. De balão e pé alto.
— Azarrrtes. Também se enrola na tua língua, esta palavra?
— Às vezes não chega lá, fica presa no estômago – respondeu a da franja, aceitando o copo de vinho inexistente que a outra lhe oferecia. — Azarrrtes.
— Mas é para isso que viajamos, não é?
— Para soltar a palavra?
— Ou para nos livrarmos da acidez que às vezes traz do estômago.
A da franja olhou de novo as paredes cor-de-rosa, cor de doces.
— Mas do estômago vem também a doçura, não vem?
A de puxo deu um gole de vinho inexistente e começou a pentear o cabelo com um pente inexistente, sem responder. Ficaram assim, frente a frente, em pé, à espera do vento e da água, do movimento artístico da energia.
A caneta BIC balançava-se, agora, como se as palavras que as mulheres não proferiam fossem feitas de uma balada encantadora. A da franja sorriu.
— Estou a ver que já tens respostas.
— Nem por isso, mas é bonito de se ver. É realmente belo.
— E precisas de mais?
Pegou na cadeira, virou-a ao contrário, mas sentou-se de frente, com as pernas abertas, uma de cada lado do apoio de costas. Com um gesto, pediu à da franja que fizesse o mesmo.
— Acho que finalmente acertámos. Nisto do Fing…
— De acordo. Quem não sabe dizer, inventa.
As newsletters literárias do Clube das Mulheres Escritoras são gratuitas e sempre serão. Todos os textos são originais e oferecidos pelas autoras. Mas, se quiser apoiar esta iniciativa, pode oferecer-nos um café ou comprar a nossa revista anual AQUI. Obrigada e boas leituras.






Três textos maravilhosos, obrigada por estas viagens.
https://gigisallenave.substack.com/p/cartografia-do-invisivel?utm_source=share&utm_medium=android&r=8thsjt
O primeiro a gente não esquece 🫶🏻🥰