Tempo
Newsletter literária #32
ORGANIZAÇÃO: RITA DA NOVA | REVISÃO: MARIA BRAVO | IMAGEM DO CONVITE: CÉLIA CORREIA LOUREIRO | CAPA DA REVISTA: SALETE PEREIRA
Como é apanágio dos nossos marços, este mês a nossa criatividade literária saiu de uma newsletter e foi, com corpo de tinta e papel, pousar nas páginas da nossa mais recente revista. Dedicámo-la ao TEMPO: esse desvairado que se nos escapa todos os dias, esse tesouro que só os mais sábios conseguem aproveitar na sua totalidade, esse mágico que muda de forma consoante lhe apetece.
As revistas do Clube das Mulheres Escritoras são uma forma de assinalar os nossos aniversários, de os gravarmos para lá de píxeis em ecrãs — de os fazermos perdurar no tempo, pois bem. Se vos atiçámos a curiosidade, saibam que podem vir celebrar connosco numa festa três em um: marcamos o 3.º aniversário do Clube, o lançamento da 3.ª edição da nossa revista e o nosso novíssimo podcast intitulado «Nós, Voz, Elas».
É já este sábado, dia 21! Ficamos à vossa espera na novíssima Almedina da Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, a partir das 16h, para fazer a festa convosco. Sem quem nos lê, este projeto não seria o que é.
Antes de vos surpreendermos com alguns pequenos excertos da revista — afinal, esta ainda é uma newsletter literária —, explicamos como podem adquirir mais uma edição da revista:
Na festa de aniversário do Clube das Mulheres Escritoras, no dia 21 de março;
Através do nosso e-mail (clubedasmulheresescritoras@gmail.com), com envio por CTT;
Nas seguintes livrarias, da próxima semana em diante: Almedina Fontes Pereira de Melo (Lisboa), Almedina CCB (Lisboa), Ler Devagar Casa do Comum (Lisboa), Ler Devagar LX Factory (Lisboa), Greta (Lisboa), Arquivo (Leiria), SNOB (Lisboa), Inquieta (Lisboa), Indie Not a Bookshop (Cascais), Fonte de Letras (Évora), Unicepe (Porto), Flâneur (Porto), Letras Lavadas (Ponta Delgada) e Lar Doce Livro (Angra do Heroísmo).
Melhor do que uma revista? Só duas.
Ainda não têm a 2.ª edição da nossa revista, dedicada ao tema PAZ? Numa oferta limitada ao stock existente, podem adquiri-la em conjunto com o vosso exemplar da revista TEMPO por 19€ (oferta dos portes de envio). Contactem-nos por email para clubedasmulheresescritoras@gmail.com.
O que podem encontrar na revista?
Mais um ano de revista, mais uma colaboração com a maravilhosa Salete Pereira para a criação desta capa. Todos os anos dizemos que é a nossa favorita, o que fazer? Podem acompanhar o trabalho dela em: @tango.drawings.
Para aguçar o apetite, deixamos-vos então com alguns excertos. Boa leitura!
O que fica depois de nós
Por Elisabete Martins de Oliveira
«A adultez tem uma forma curiosa de nos trazer a verdade: depois da infância e das formas binárias de interpretar a realidade, brotam as tonalidades. A história ganhou dimensões para as quais não estava preparada e que ainda hoje me despertam linhas de arrepios pela coluna. De repente, a história do meu vizinho ganhou tons e melodias que contrastaram numa tela de matizes de vida. As pessoas nem sabiam da missa a metade, e é isso o que mais me perturba. O que dizer de uma existência com tamanho movimento? O que dizer da solidão a que alguns idosos são votados nos seus fins de vida? O que dizer das cicatrizes que os rumores deixam? E o que dizer da verdade que ficou por contar? Tenho tanto a escrever sobre isto, tanto a refletir. A vida ensinou-me as maneiras mais cruéis de aprender a contar o que ninguém quer ouvir.»
O Relojoeiro
Por Filipa Fonseca Silva
«Eram estas as dúvidas que assolavam Edinho enquanto fingia prestar atenção ao padre nas suas pouco convincentes exéquias. E delas despertou ao ouvir o tique-taque do relógio de bolso que pedira ao homem da funerária para enfiar no colete de José, de modo que levasse para onde quer que fosse a relíquia herdada de um tio-avô. Edinho lembrou-se de que tinha de parar o relógio. Oh, sim! Não podia permitir que ficasse no bolso de José ainda a funcionar, pois, naturalmente, perderia a corda, e o mestre detestava o som de um relógio descompassado, a agonia de um ponteiro sem força para se mover. Empenhado em não permitir que o seu velho amigo passasse por tal tormento, saltou do banco da igreja para cima do caixão, perscrutou o corpo inerte à procura do relógio, puxou a coroa e voltou a pô-lo onde estava, agora parado para sempre, tal como o coração de José. Enquanto isso, o padre gritava, o Esteves ralhava, e o Sr. Armindo acabou por levá-lo para fora da Igreja pelos colarinhos. Edinho não se importou. Tinha conseguido parar o relógio, e isso era muito mais importante do que o silêncio que se exige num templo escuro e frio, onde as estátuas têm um ar sofrido e raramente sorriem.»
Amanhã vou beber um copo às cinco
Por Gabriela Relvas
«Amanhã vou beber um copo às cinco
Meter-me no carro às quatro e quarenta e cinco
na direção contrária a casa
Porque em casa tenho marido e putos a cuspirem folhas como a impressora cospe
E eu
Eu já estou oleada para os crimes, os milagres, os negócios, os amantes
para comprar uma tábua de queijos ou um caiaque e uma pagaia
— é que o mar é tão bonito! —
para comprar cacahuetes ou aprender espanhol
Ou jogar à língua dos pês, descalça, com um miúdo qualquer»
Destinos
Por Joana Kabuki
«O que se passa ultimamente com Sebástian é que os olhos lhe começaram a falhar. De vez em quando, uma névoa tolda-lhe a visão e, durante uns momentos, tudo o que vislumbra são vultos em movimento. Consultou oftalmologistas e neurologistas. Nem uns nem outros encontraram explicação para o facto. Não existe um padrão. Não é de manhã quando se levanta, pela ambientação à luz, nem à noite, quando se podia dizer que a vista estivesse mais cansada. Não é quando tem fome, por falta de açúcar, nem quando acaba de comer, por excesso do mesmo. Simplesmente, acontece. Tanto pode acontecer duas vezes num dia, como estar dias sem que a névoa indesejada o torne a visitar. E para um homem como Sebástian, que gosta de saber com o que conta, isto seria um problema, por si só. Mas o problema é ainda maior.»
Esparguete — 7 a 9 minutos
Por Mafalda Santos
«E então vê:
Numa catadupa de imagens simultâneas, um homem chora a morte de um amigo, um rapaz arrisca a vida para salvar um cão numa enxurrada, uma família foge de casa, a tempo de evitar a segunda bomba que a destrói por completo, uma mulher é pedida em casamento, uma mãe esquece-se, pela primeira vez, do nome do seu filho, um acidente de carro destrói uma família, uma adolescente descobre que está apaixonada, um atleta tem uma síncope e morre durante uma competição, um casal assina a escritura da casa dos seus sonhos, duzentos trabalhadores recebem uma notificação de despedimento coletivo, um bebé é abandonado à entrada de um hospital.»
Na hora
Por Rita Canas Mendes
«Olho para ti no berço, sem coragem para te acordar, embora esteja na hora. Conheço a tua rotina, sei que te deixar dormir desarrumará tudo. O tempo já foi organizado pelos ciclos da Lua, pelo ritmo do Sol, os anos já tiveram dez meses. Há culturas que o contam da frente para trás ou de cima para baixo. Com relógios atómicos e datação carbónica, somos milimétricos a cartografá-lo. Mas ninguém conhece o tempo como as mães, sacerdotisas da sua passagem, atentas às menstruações, magas do calendário, guardiãs das datas importantes. Se engravidamos, o tempo toma conta de nós, desfiamo-lo mentalmente, recapitulamos, fazemos contas, previsões. Quantos dias até, tantas semanas para. Cada dia que passa, uma aflição ou um milagre. De quantos meses estás? E não sabemos responder, porque nunca contabilizamos dessa forma. Contamos em trimestres, semanas mais dias, peso, centímetros, em frutos. Trago um morango no ventre. Já vou numa meloa.»
Metamorfose
Por Sara Rodi
«Tenho sorte, habito um jardim que me deseja viva. Não estou no trajeto de uma autoestrada em construção. Num terreno que é preciso limpar para fazer erguer um condomínio de luxo. Não estou sequer sozinha no alto de uma montanha inóspita. Sou só, mas em terra boa, sem ameaças visíveis, nas mãos de jardineiros zelosos. Tenho sorte. Desmerecida, certamente. A contemplação — exercício primordial das árvores — devolve-me a incerteza de ter feito algo de bom. E já não vou a tempo. Não há tempo.»





