Mar
Newsletter literária #35
ORGANIZAÇÃO: GABRIELA RUIVO | REVISÃO: MARIA BRAVO | TEXTOS: FILIPA FONSECA SILVA, MARIA FRANCISCA GAMA E LÉNIA RUFINO
Estes três textos são tão diferentes entre si quanto o mar revolto o é das águas de uma lagoa plácida e cristalina. Mas é pelo mar, sempre, que chegamos ao fundo: num caso, às areias douradas de um sentimento de vitória, no outro, ao âmago do poço de uma perda sem remédio, ou ainda, à inquietação de uma teimosia e dúvida ancestrais. Venham daí dar esse mergulho. E, se for o caso, boas férias com boas leituras!
Clube das Mulheres Escritoras
Um dia destes
Por Filipa Fonseca Silva
Mesmo em plena hora de ponta, mesmo sem saber bem a quem pedir para ficar com os miúdos ou quem trataria do jantar. Larguei tudo, mesmo tudo, por ti.
Um dia destes, recebi um telefonema e larguei tudo por ti. Mesmo tudo. Não quis saber da reunião das cinco, nem da falta de iogurtes no frigorífico. Não me preocupei em ir buscar os miúdos à escola, nem me importei que fosse hora de ponta. Tinha de te ver, impreterivelmente; tudo o resto que esperasse.
Fiz o caminho em piloto automático, confiando nas indicações da aplicação de navegação, enquanto recordava as últimas conversas que tínhamos tido ao telefone, cada vez mais espaçadas, cada vez menos demoradas. Quinze ou vinte minutos a fazer o resumo de vários meses de vida, não mais do que isso, que o arroz está ao lume, o mais novo está a chamar, o teu gato acabou de atirar um vaso ao chão. Não era por mal. A vida é que é mesmo assim. Há sempre qualquer coisa mais urgente do que uma mera conversa entre amigas.
Por vezes, determinada música ou notícia fazia-me querer ligar-te. Porém, nunca era a hora certa. Sabes como é. Durante o dia, achava que podias estar no escritório, ocupada, e à noite, não queria interromper o teu jantar. Quando me despachava dos meus afazeres, olhava para o relógio e achava que já era demasiado tarde. Ligo amanhã, ou depois. Talvez no fim-de-semana. Sim, no fim-de-semana é o ideal. Podemos falar com tempo, dizia para mim própria. Outras vezes, aparecias-me em sonhos, alguns tão trágicos e angustiantes que acordava em sobressalto. Teria o sonho sido um sinal? Precisarias de mim? É hoje que ligo, prometia, mas nem sempre cumpria, pois a angústia depressa se dissolvia na luz baça de mais um dia com a agenda cheia.
Quando finalmente conseguíamos conversar ao telefone, terminávamos sempre com a promessa não cumprida de um jantar, ou talvez um almoço a meio da semana, ou, vá, um mero café, mas não ao fim do dia, que, já se sabe, não dá jeito nenhum. O trânsito, os miúdos, o projecto para entregar. Não interessa, temos de nos ver, de nos abraçar. Marcamos já para a semana? Não pode ser. Tu vais estar fora, em trabalho, e eu tenho uma consulta qualquer. Na semana seguinte, os teus pais vêm visitar-te, e são os anos da minha irmã. Não é por mal. Tu sabes. Mas é difícil conciliar agendas. Talvez no sábado, se não houver torneio dos miúdos ou almoço de família. Ou então nas férias. Melhor nas férias. Já esperámos tantos meses que podemos esperar mais dois. O Verão está aí à porta. Um dia de praia, conversas à beira-mar, fechar o dia com uma sardinhada... isso é que era! Lembras-te de quando passávamos férias juntas e eu te ensinava a boiar? Tinhas algum medo do mar, mas comigo aventuravas-te, como se eu, com a minha fraca figura, te pudesse valer de muito em caso de aflição. Dizias que flutuar no mar era a melhor sensação de sempre e fizeste-me prometer que flutuaríamos de mãos dadas até sermos velhinhas, lembras-te? Há tantos anos que não o fazemos, mas agora é que vai ser. Nas férias, então, sem pressas, sem hora marcada. Está prometido!
Era sempre assim, não era? A nossa amizade reduzida a encontros pontuais, duas ou três vezes por ano. Como é possível o tempo passar tão depressa? Ainda ontem era Natal...
Mas hoje foi diferente.
Hoje compareci.
Mesmo em plena hora de ponta, mesmo sem saber bem a quem pedir para ficar com os miúdos ou quem trataria do jantar. Larguei tudo, mesmo tudo, por ti. E ainda te levei flores. Imagina! Há tanto tempo que não te oferecia flores...
Quando finalmente cheguei, fiquei a olhar para elas sem saber o que lhes fazer, até ganhar coragem para entrar. Só aí caí em mim. Abracei-me ao teu marido e comecei a soluçar, mas tu, embora deitada mesmo ao nosso lado, já não me ouviste, pois não?
Não importa. Um dia destes, teremos o nosso tempo. Num outro mundo, que talvez seja eterno. No qual talvez haja uma praia enorme para corrermos mar adentro entre gargalhadas. Só peço que tenhas paciência e não desistas de mim. Haveremos de flutuar de mãos dadas.
Mar colorido
Por Maria Francisca Gama
Há uma multidão em particular que me emociona — e na qual encontro mar, poderoso, infinito — não por ser especialmente fanática pela modalidade, mas porque me parece que é uma das poucas alturas em que, apesar de todos os apesares, há uma cola que nos agarra uns aos outros e nos permite ser um.
Ninguém olha para o mar e consegue distingui-lo: mesmo que estejamos numa ilha grega e a água seja cristalina, descrevemo-lo como opaco, não no sentido de ser escuro ou impossível de ser penetrado pela claridade, mas por ser denso, difícil de destrinçar. O mar tem água emaranhada e todo ele existe como se fosse apenas uma só coisa, mas sabemos que nele existem várias vidas, milhões e milhões de gotas de chuva que caíram durante outros milhões e milhões de anos, e que a facilidade com que o identificamos e nomeamos — ali está o mar — não se deve à sua lisura, mas à imensidão com que perante nós se apresenta e nos diminui… Até nós, vingativos ou simplistas, o diminuirmos a uma pequena palavra.
Já multidão, por outro lado, dura mais tempo na boca, mas decresce no fim, como se nos indicasse que, findo o seu propósito, acabará: basta as pessoas que a compõem dispersarem, terem de ir ao supermercado ou buscar os filhos à escola, estarem fartas de ali estar ou serem convidadas para um programa melhor, e pronto.
Há uma multidão em particular que me emociona — e na qual encontro mar, poderoso, infinito — não por ser especialmente fanática pela modalidade, mas porque me parece que é uma das poucas alturas em que, apesar de todos os apesares, há uma cola que nos agarra uns aos outros e nos permite ser um. Tenho-a visto nas últimas semanas e, ainda que nem sempre me junte, gosto de saber que ela existe e que, afinal, ainda há esperança, qualquer coisa que nos faz estar rodeados de estranhos e sentir parte de algo maior. O futebol.
O meu pai era treinador: em minha casa não se via televisão ao jantar, a menos que jogasse o Benfica. Eu não podia ficar na Praça até tarde com as minhas amigas, salvo nas alturas do Euro ou do Mundial e apenas se os jogos estivessem a ser transmitidos num ecrã gigante. A minha mãe chamaria a polícia se quatro ou cinco rapazes se pusessem a lançar fogo de artifício perto da nossa casa, com exceção do dia 10 de julho de 2016, data em que, até ela, se os tivesse, se teria intitulado uma velha festeira.
Percebo pouco de futebol e raras são as vezes em que me emociono com desporto, mas neste Mundial já chorei a ver na televisão as multidões nos estádios, nos cafés e nos jardins, nos golos e nas oportunidades perdidas, abraçados, porque, ainda que não perceba muito de futebol, percebo qualquer coisa de multidão e de mar. Sei que é difícil sentirmo-nos tristes a flutuar, que essa existência na água nos traz conforto e, por vezes, nos ajuda a ter fé em dias melhores, e recordo também como é assustador sentir-me sozinha rodeada de outros. O futebol — torcer pela equipa do nosso país — oferece a quem o vive uma luta comum, apresenta um vizinho que se mudou há pouco tempo para o bairro e mostra como há qualquer coisa que nos liga, mesmo que desconfiemos que essa coisa é temporária e não estejamos todos de acordo com o Cristiano Ronaldo jogar os noventa minutos regulamentares. Acho bonita — e imensa — a ideia de estarmos todos a sonhar em conjunto.
Por isso, e pela alegria que agora se vive nas ruas quando Portugal joga, um mar que invadiu as cidades, vilas e aldeias do país, colorido, vermelho, verde e amarelo, quero que cheguemos à final, que a frustração do nosso povo seja reflexo apenas de uma bola à barra e as lágrimas de euforia construam uma onda brilhante, nada opaca, esperançosa. Enquanto o Mundial acontece e nós fazemos parte da multidão, somos mar revolto no qual o sol nos permite ficar mais um pouco. Força, Portugal!
Mergulho
Por Lénia Rufino
O homem de barba que envergava uma veste branca pousou-lhe num ombro uma mão e na testa a outra, e mergulhou-a no mar gelado e agitado, nada se importando com o que ela pudesse temer.
Um dia, também tu entrarás neste mundo, uma espécie de trono em que só os eleitos se sentam e no qual tu, hoje maculada, caberás quando a tua vez chegar. A promessa mil vezes proferida foi assim entendida durante anos e anos, até deixar de o ser. Num momento que não é capaz de situar, o prometido tornou-se sentença, o castigo que cabe aos que acreditam. E ela duvidava, embora quisesse cravar no peito as mãos, olhos postos no alto, a súplica de quem não tem nada verdadeiro a que se agarrar.
Rezava, cumpria os preceitos, obedecia ainda que não entendesse como podia o amor ser pecado. E amava. E punia-se por isso. Porque não se ama um corpo igual ao nosso, não se ama o que é igual a nós. Porque Deus, deus ou o que quer que queiram endeusar rejeita este tipo de amor. Mas ele, Ele, não ordenou «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei»? Então como é que amar pode ser pecado? Amar seja quem for, como for, em que moldes for, desde que seja amor?
Vivia com mais perguntas do que respostas, mas rezava na esperança de que um dia tudo o que procurava viesse ter consigo e pudesse, então, viver o melhor de dois mundos, viver o que amava em pleno, a mulher e Deus, aquela que era igual a si e Aquele a quem prometera amar para sempre, independentemente das perguntas que surgissem no caminho como estradas cortadas sem aviso de desvio.
Ouvia mais tempestades do que graças e não entendia como podia o mesmo Deus em que acreditava ser castigador. Temente a Deus, diziam, e ela não entendia como se podia temer o que se ama tanto, porque amor não rima com medo. Obedece, diziam, e ela obedecia e, entre dúvidas sacudidas para trás das coisas e vazios ainda por preencher, chegou ao momento por que ansiara durante anos.
E ela, tolhida, sentia do mar um pavor imenso. Como se todos os seus males viessem assim, líquidos e translúcidos, uma mentira feita crença ancestral. O homem de barba que envergava uma veste branca pousou-lhe num ombro uma mão e na testa a outra, e mergulhou-a no mar gelado e agitado, nada se importando com o que ela pudesse temer. Deus era o único que ele julgava merecedor de tal honra. E ela, feita de amor e de luz, não sentiu no momento o milagre. Não se abriu diante de si um caminho cheio de luz, nem vislumbrou o trono em que se haveria de sentar com os escolhidos. Ela, que tinha do mar uma fobia imensa, engoliu água que não conseguiu expelir e a única coisa que sentiu foi amor. Por Deus, pela mulher a quem beijava o cabelo quando tinha a sorte de se achar com ela a sós nem que apenas por alguns segundos. E por si, que crera numa fantasia e percebia agora, entre a vida e a morte, que Deus nenhum viria para a salvar. A salvá-la, apenas o amor e a memória que se esfumava como gotas que secam no corpo, deixando como prova apenas um rasto de sal.
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