Fé
Newsletter literária #29
ORGANIZAÇÃO: MARIA BRAVO | REVISÃO: GABRIELA RUIVO | TEXTOS: MARIA FRANCISCA GAMA, RITA CANAS MENDES E VALENTINA SILVA FERREIRA | ILUSTRAÇÃO: CÉLIA CORREIA LOUREIRO
No último mês do ano, a fé de três das nossas escritoras manifesta-se onde nada está seguro. Surge numa pergunta absurda, dita no meio do caos; num Natal que pode ser o último; numa torre erguida com a convicção perigosa de que o céu se alcança à força. Não é sempre grave nem solene: é uma fé que reage, improvisa, titubeia, insiste, se engana e regressa quando tudo parece falhar. Entre o milagre improvável, a dificuldade de dizer adeus e a soberba que desafia o divino, estes textos aproximam-se do que nos sobeja.
Boas festas, queridos leitores. Esperamos reencontrar-vos por aqui, no próximo ano.
Clube das Mulheres Escritoras
Casmurra não se espanta
Por Maria Francisca Gama
Tantas coisas que lhe faltam, todo um mundo que a extravasa, porque se demite todos os anos da vida, nem arredando pé depois, vendo-se ainda aqui, bastava dizer-se arrependida, mas não, porque não?

Há mais de dez anos que se despede do Natal, pois sabe que não viverá o seguinte. Di-lo num tom despachado, de quem poderia estar a fritar rissóis ou a estender a roupa — quer que a vejamos já resignada, como se isso nos escudasse a todos do sofrimento — e comenta que, ao menos, aquele foi o melhor Natal que já tivemos. Também explica onde deixou as coisas de valor, que destino gostava que déssemos à Cruz de Cristo escondida entre as panelas, enrolada num pano axadrezado, e que histórias estamos autorizados a contar após a sua ausência.
Mal entramos, beijinhos e abraços dados, somos convidados (se recusarmos, obrigados) a fazer uma visita guiada à casa — a mesma de sempre, que conhecemos sobejamente, melhor do que a nós próprios —, numa excursão que se poderia chamar «caminho para a morte» ou título semelhante. Não que vejamos instrumentos de tortura ou nos horripilemos com a decoração, mas há qualquer coisa dentro de nós que se vai queimando, picando, doendo. Atrás de si, percorremos cada divisão, de bloco de notas e caneta, assentindo perante instruções, conselhos e vários pedidos (mesmo e principalmente quando no preâmbulo se ouve «já sei que isto não vão fazer»). Há, na sua voz, a praticidade de quem sabe que o inevitável se aproxima e, «assim como assim», parafraseando-a, deixa as coisas orientadas… Mas também há uma desilusão derrotada pela certeza de que já não se espantará com a vida, que tudo, dali para cá e de cá para onde ainda for, é apenas um arrastar da mesmice, do suposto.
Falta-lhe ver coisas belas, ser surpreendida por uma semente que vira fruto, assustada por um cão que fala, apaixonada por um computador que a gala sem pudor. Talvez lhe falte saber que o futuro é inimaginável, que as coisas que conhece serão outras e que o trânsito se fará no céu e também no mar. Tantas coisas que lhe faltam, todo um mundo que a extravasa, porque se demite todos os anos da vida, nem arredando pé depois, vendo-se ainda aqui, bastava dizer-se arrependida, mas não, porque não? Leio este poema da Sophia de Mello Breyner Andresen e percebo-a melhor.
Noite sem nome, do tempo desligadas,
Solidão mais pura do que o fogo e a água,
Silêncio altíssimo e brilhante.
As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colho a absolvição de toda a mágoa
É muita vida. Enchemo-la umas horas com as nossas histórias e risos, mas saímos e a casa fica vazia. Ela ainda está lá, apesar de todas as vezes em que já disse adeus.
God?
por Rita Canas Mendes
Sem saber mais o que fazer, recomeço a chorar, a rezar pela minha alma, a pedir perdão a Deus. Estou cheio de pena do homem, estou cheio de pena de mim.

As gotas de chuva caem gordas no vidro e os limpa-para-brisas mal têm tempo de as afastar. O barulho é tal que se sobrepõe à rádio, sintonizada na Renascença. Avanço com cautela, mas o lençol de água à minha frente e a absoluta escuridão da estrada fazem-me encostar, por precaução. Não se vê vivalma, mas faço o pisca na mesma, por hábito. Quando viro à direita, num local que me parece seguro, bato em qualquer coisa e não percebo o quê. Porra, penso. Ligo os quatro-piscas, agarro no guarda-chuva e saio para ver o estrago. Assim que ponho a perna fora da porta, percebo que a única coisa que o guarda-chuva manterá seca será a minha cabeça, e com sorte. Dou a volta à dianteira do carro, que tem os faróis acesos, para ver o tronco ou a pedra com que choquei. O que vejo faz-me dar um grito de mulher que deparou com uma aranha, mas o instinto é mais forte do que eu. À minha frente está uma pessoa estatelada, um homem grande, imóvel e totalmente ensopado. Num microssegundo, penso: que raio fazia ele ali naquele preciso momento em que virei? Mas depois baixo-me imediatamente para ver se está vivo, se respira, se tem pulso. No meio da chuvada e do desespero, não consigo sentir ar algum a sair-lhe do nariz, nem pulsação no pescoço, só vejo que está de olhos fechados e não se mexe, pelo que lhe dou umas palmadas nas bochechas, a ver se reage. Nada. Continua imóvel. Entro em pânico e lembro-me de que a coisa mais evidente a fazer é chamar uma ambulância. Volto ao carro, pego no telefone e marco o 112, que demora uma eternidade a atender. Volto para junto do homem, embora saiba que não lhe devo mexer. O sujeito traz às costas uma enorme mochila, que o faz parecer uma tartaruga de pernas para o ar, com a carapaça voltada para baixo. Depois, reparo em qualquer coisa ao nosso lado, no meio da estrada, e vejo um pau comprido que tem na ponta uma concha de vieira partida. É um peregrino! De todas as almas neste mundo que eu poderia ter atropelado, matei um peregrino! Agacho-me ao seu lado e começo a chorar. Não tenho coragem de deixar o corpo ali sozinho, embora não possa fazer nada por ele.
O 112 lá atende, eu recomponho-me e digo-lhes o que se passou e onde estou. Respondem que enviarão uma ambulância, mas que pode demorar, por causa do temporal, o que não me admira. Só espero que não se despistem nem atropelem ninguém pelo caminho.
Sem saber mais o que fazer, recomeço a chorar, a rezar pela minha alma, a pedir perdão a Deus. Estou cheio de pena do homem, estou cheio de pena de mim. Só posso esperar que os bombeiros cheguem. Como é que uma coisa destas foi acontecer? Como é que uma coisa destas foi acontecer? — pergunto-me vezes sem conta enquanto soluço.
Passado algum tempo, a chuva abranda um pouco. Não passam carros nem para um lado nem para o outro, e eu anseio pela chegada rápida da ambulância. Estou a olhar fixamente para o breu da estrada quando ouço um gemido ao meu lado. É o peregrino! Está vivo! Dou-lhe novamente uma palmada na cara molhada, mas ele não se mexe, só geme. Debruço-me sobre ele e, agora que a chuva quase parou, tento perceber como está a sua respiração.
No rádio do carro, ouve-se o hino Aleluia no preciso instante em que o homem abre os olhos. Estamos os dois atónitos e cheios de medo, cada um tentando decifrar o rosto do outro.
— God? — diz ele, numa voz rouca, sofrida.
O homem acha que morreu e foi para o céu. As luzes dos faróis, a minha cara a pairar sobre a sua, as vozes a cantar devem ter-lhe dado essa impressão.
Passo do choro ao riso. Estou eufórico e, como não falo estrangeiro, só consigo dizer:
— Milagre! Milagre! Milagre!
O homem sorri comigo, entre gemidos.
É então que a ambulância chega. Os paramédicos tratam do peregrino, e eu fico a vê-los, impotente, mas aliviado. Que alívio, meu Deus, que alívio. Obrigado, meu Deus, obrigado. Depois, quando põem a maca na ambulância, pedem-me que os siga até ao hospital, coisa que faço.
Pelo caminho, alterno entre o choro de desespero e o riso de gratidão. Agora só espero que o homem não me processe.
A Torre
Por Valentina Silva Ferreira
Deus, esquelético e macilento, agonizava. Não sabia justificar aquela derrota. (…) Deus vivia de amor e esse deixara de existir nas portas da terra.

«Depois disseram: “Agora, vamos construir uma cidade com uma grande torre que chegue até ao céu, pois temos de ficar famosos antes que tenhamos de nos dispersar pelo mundo.”
O Senhor desceu, para ver a cidade e a torre que os homens estavam a construir e disse então para consigo: “Eles são um só povo e falam todos a mesma língua. Agora puseram-se a fazer isto e depois ninguém mais os poderá impedir de fazerem aquilo que projetarem fazer. Vou lá baixo confundir as suas línguas, de modo que eles se não entendam uns aos outros.” E desta forma, o Senhor, os dispersou por todo o mundo e eles desistiram de construir a cidade. Por isso, aquela cidade ficou a chamar-se Babel, porque foi lá que Deus confundiu as línguas da Humanidade e foi de lá que os dispersou por todo o mundo.»
(Gn 11, 4-9)
O rebanho pontilhava a planície de pequenas manchas claras. Um pinheiro desfolhado abrigava, do sol aceso, dois cães ossudos e esquálidos que vigiavam as leoas esfomeadas, do outro lado do desfiladeiro. Shemu’el empurrava as pequenas pedras que interrompiam o caminho. Tinha o semblante carregado de preocupação: uma espécie de angústia crescente e perigosa. Mais à frente, o pequeno Balt-shar-usur corria em direção aos animais, rindo com os passos desajeitados das pequenas ovelhas lãzudas. Uma montanha endireitava-se naquela que seria a região mais escarpada das terras de Senaar. Era a primeira vez que se aventurava para aqueles lados, mas a urgência em encontrar Joctã obrigara-o a fugir durante a madrugada, três dias antes. Assobiou para os cães, fazendo-os arrebitar as orelhas e acelerar o passo. O balido das ovelhas assustadas ecoou pelas rochas, e a criança morena e suja de terra sorriu.
— Procuras-me? — A voz driblou as paredes espessas da gruta, chegando até ao pastor.
— Joctã. — Shemu’el cumprimentou-o, erguendo o bastão que sempre o acompanhava. — Caminho há três dias, fugido. Almodá disse-me que te encontraria por estes lados.
Os olhos do homem enevoaram-se. Levantou-se da pedra e deixou-se mostrar à luz do dia.
— Como estão os meus filhos?
Shemu’el sabia que não trazia boas notícias e tentou encontrar as palavras certas, embora cresse que nenhum eufemismo era suficientemente licoroso para abafar a morte de um filho.
— Jerá não sobreviveu à queda de um andaime. — Shemu’el encarou o chão. Ouviu, ali perto, os risos de Balt, sentindo-se ainda pior. — Selefe e Huzal também caíram. Partiram alguns ossos.
Joctã suspirou, virando-se de costas para o pastor. O sol refletiu nos seus cabelos platinados. Um dos cães farejou-lhe os pés.
— Eu avisei que os planos de Nimrod só trariam a desgraça.
— Venho pedir-te um conselho… — murmurou o pastor. — Nimrod impôs três dias de trabalho gratuito a todos os homens. Dois dias às crianças com mais de dez anos… — Entristeceu. — Balt faz dez anos depois de amanhã.
— Podes ficar aqui. — Joctã voltou-se. — Vinde todos para estas grutas. Afrontaremos Nimrod e os seus planos contra Deus.
— Os teus filhos estão com ele… — O pastor sabia que essa traição seria desoladora para Joctã. — Mesmo com a morte do irmão e do acidente com os outros dois, Nimrod tem o apoio dos restantes dez e de todo o Conselho. Somos poucos os que discordam daquela obra.
— Vejo a torre daqui. — Apontou para sul. — Uma afronta.
O silêncio interrompeu a conversa. Um silêncio perturbador: Balt-shar-usur costumava rir e conversar com os animais, sem intervalo. As suas corridas deslizavam pela terra batida, e as ovelhas respondiam com os cascos e coros descoordenados. Mas havia nada mais que o silêncio. Shemu’el assobiou, na expectativa de ver os cães aproximarem-se. Afastou-se: o coração colado ao peito, desnorteado, e o céu da boca seco como aquele quase deserto. O filho estava de costas para o rebanho, que se afastava calmamente. Dois soldados apertavam os pulsos da criança.
— Larguem-no! — gritou. — Imploro-vos.
Os dois descendentes de Noé, de barbas frisadas e cabelos oleosos, mastigaram um sorriso irónico e aproximaram-se.
— Pensastes que a vossa fuga não seria notada? — perguntou um deles, sem esperar resposta.
O mais baixo dos soldados sacudiu o menino pelos ombros, na tentativa de calar o seu choro. O outro desembainhou a espada e ergueu-a sobre a cabeça do pastor que, sem esperança, fechou os olhos molhados.
— Quem viestes procurar? — O rosto encontrava-se próximo, sentindo-lhe o hálito desagradável. — Joctã?
Shemu’el não seria traidor. Calou-se. O velho poderia esconder-se nas grutas e passar despercebido. Baixou a cabeça, adivinhando uma morte sofrida. Lamentava, apenas, que o filho fosse obrigado a assistir a um possível lençol de sangue.
— Deixem-no. — O tom era calmo, praticamente uma carícia. — Sois assim tão cobardes a ponto de matar um pai de família?
Jacó gargalhou, e o choro da criança intensificou-se.
— Seria um desperdício — concordou Ari. — Precisamos de braços de força para a Torre de Nimrod.
— Torre de Nimrod? — estranhou. — Mudastes o nome?
— O Rei acha mais apropriado — respondeu Ari, dando passos minúsculos em direção ao idoso. — Sois um traidor, Joctã.
— Deus manda-nos ser humildes e seguir os Seus preceitos. Apenas poderemos aproximar-nos Dele através do espírito e da obediência. Nunca através de uma torre construída com o sofrimento do povo.
Jacó estalou a língua num som desrespeitador e, até, um pouco provocativo. Ari sorriu-lhe e apoiou a espada no pescoço do velho fugitivo.
— Deus não está acima de um homem como Nimrod. E a prova está ali. — Esticou o dedo em direção à torre.
Era um edifício imponente, feito de tijolos cozidos no fogo e betume. Em dia de céu aberto, distanciar-se-ia do azul celeste; porém, as nuvens acumulavam-se naquela área, fazendo com que a ponta, ainda em construção, se embicasse por entre as camadas fofas. Joctã sabia que não existiam alternativas. Era descendente de Sem, filho de Éber, e carregava, nesses nomes, a coragem de enfrentar qualquer situação. Endureceu o pescoço e deslocou-o uns milímetros para a direita, o suficiente para a ponta da espada rasgar a carne e golfar o sangue quente. Ari não se deu conta de imediato, pois admirava a torre mágica. Quando sentiu o puxão no cotovelo, viu Joctã agarrar os joelhos com as mãos e cair com um baque. A arma pingava vermelho. Shemu’el gritava ao filho para que fechasse os olhos, mas aquele, curioso, admirava o gotejar dançarino.
Não havia nada mais belo que a morte, principalmente a de um traidor. Com o olhar suspenso num fio de vida, Joctã estrebuchava no pó, sob o olhar incrédulo de Balt e a tristeza de Shemu’el. Este sabia o que adviria daquele confronto e não tinha como se resignar a isso. Desviou a cabeça em direção à torre. Torre de Nimrod: quanta soberba. As nuvens acumulavam-se no topo. Era como se Deus quisesse impedir que ela subisse mais. Um resfolegar prolongou-se até o corpo de Joctã repousar, por completo, no chão. Os soldados, satisfeitos, empurraram pai e filho pela trilha de regresso. Precisavam de todas as forças para concluir a obra antes de uma possível ira de Deus.
Uma tosse sacudia-se no peito do Homem. Os cabelos escuros escondiam os enormes olhos esverdeados. Havia uma sombra de tristeza neles, como se a chama que os vibrasse estivesse cada vez mais enfraquecida por um vento de desesperança. Dois anjos louros e altíssimos dividiam-se no seu conforto, mergulhando panos de algodão puro em água cristalina e encostando-os à testa do Doente.
— Que se passa? Deus não enfraquece. Deus não adoece. Que se passa? — cantavam, como harpas, numa língua musical.
Em baixo, a vários metros de distância, pequenos seres humanos amontoavam tijolos naquela direção, provocando-lhe calafrios febris.
— Eles… aproximam-se… — conseguiu sussurrar. — Trazem… o coração enganado… o coração cheio… de ódio… — Tossia. — Eles… já não acreditam… em mim. Apenas… ódio… — gemia. — Aquele… Nimrod… é a ele… é a ele… que agora amam…
Nimrod vestia as peles mais bonitas, oferecidas pelo progenitor, Cuche, quando completou vinte anos. Elas tornavam-no invencível e irresistível. Na cabeça, usava uma coroa simples, vermelha, que combinava com a barba grossa. Beliscava pão acabado de cozer, humedecendo os lábios com vinho. Semíramis enfeitava uma jarra com flores amarelas, as únicas que cresciam nas terras áridas de Senaar. Era a mulher mais bonita de Babel, Ereque, Acádia e Calné. As suas formas sumptuosas transgrediam vestes compridas e escuras. O cabelo caía-lhe pelas costas, negro, e os olhos revelavam-se enigmáticos e ardilosos. Na posição em que estava sentado, Nimrod conseguia vislumbrar-lhe o contorno das nádegas. Sorriu.
— Todos me idolatram. — Mordeu uma maçã. — Devo casar-me. A torre está quase pronta. Irei morar lá em cima, como o rei Sol.
Semíramis endireitou a jarra no centro da mesa e desenhou um sorriso.
— Morar nas nuvens? — perguntou, curiosa.
— Aceitais ser minha esposa? — Sabia que a pergunta causaria espanto, mas não imaginava outra mulher para ocupar o lugar de rainha Lua.
— Nimrod… — suspirou. — Que pensariam as pessoas?
— Nada, minha mãe. O povo escuta-me. Já não querem saber de Deus, daquele Deus. Eu sou o prometido e trago prosperidade.
— Casar-me com vós, meu filho? — Alongou os olhos pelo corpo apenas coberto por peles de animais. — Ser esposa do rei Sol?
Nimrod anuiu, abrindo os braços e recebendo a mãe no colo. Semíramis molhou os lábios com a ponta da língua e encostou a testa à do filho. Não era parecido com o pai, mas tinha o nariz de Noé. Cheirava a goivo. Passou os dedos pelas peles e sentiu-se embebida por qualquer coisa. Amor?
— Não tirais nunca estas peles. — Beijou-o no ombro e esticou-se sobre o seu corpo seminu.
Os homens, matizados por uma película de suor, trabalhavam há 1312 dias sem parar. Dividiam-se pelo último carreiro de tijolos que concluiria a casa do Rei, no topo da torre. O casamento seria celebrado nessa tarde, com o remate da obra eterna. A aldeia estava em festa, e pessoas de toda a terra de Senaar tinham vindo para o casamento dos reis. Ao longo de vários meses, as mulheres esculpiram, em madeira, as figuras de Nimrod e de Semíramis, que eram distribuídas por todas as casas. Cinco homens da confiança de Nimrod foram incumbidos de espalhar as imagens sagradas por toda a região, até onde fosse permitido caminhar. Os traidores, aqueles que ainda tinham a palavra de Deus no coração, eram assassinados e rapidamente esquecidos. A fé Nele ia enfraquecendo ao mesmo tempo que o poder de Nimrod aumentava. Não era um homem inteiramente mau, mas não era bondoso. Não espalhava a fé nem a benevolência; preferia, antes, prometer alimento e entendimento para todos. Era disso que as pessoas precisavam em tempos difíceis, e Nimrod não faltava com a caça necessária e era o mediador de todos os conflitos que surgiam.
Semíramis vestia-se de prateado, com duas luas de argentaria colocadas por cima de cada orelha. Estava grávida de sete meses, e o filho seria o descendente do rei Sol. Pétalas douradas abriam o caminho aos noivos, que caminhavam por entre a multidão. Nimrod, senhor de todos os poderes, procedeu ao próprio casamento, aos pés da torre gigante, que desaparecia acima das nuvens.
— Meu povo, vós sois testemunha de que o homem de tudo é capaz. Mais que qualquer Deus que possamos ter conhecido; mais que qualquer transcendência que, um dia, possa ter ficado nos nossos corações.
Aplausos e assobios estremeceram a ruela daquela pequena aldeia. Crianças agrupavam-se nas varandas das casas pobres; os velhos, sentados em bancos, observavam toda a cena; pequenos comerciantes vendiam reproduções em miniatura das figuras dos reis. Estava tudo enfeitado com panos compridos e coloridos.
— Eu, Rei Sol, Nimrod, filho de Cuche, neto de Cam, bisneto de Noé, esposo de Semíramis, daqui em diante, minha consorte e designada de rainha Lua.
Beijaram-se. Alguns ainda estranhavam aquele incesto, mas eram cada vez menos as pessoas que falavam sobre isso. Nimrod recebeu a mão de Lua, e iniciaram o caminho de duas horas até ao cimo da torre. Iam deitados numa liteira aberta aos lados e com um lençol sobre as cabeças. Os transportadores subiam com dificuldade, com vários substitutos preparados para alguma desistência física. Lua adormecia, corada pelo sol e pela gravidez. O marido observava a pequena cidade. Era a primeira vez que subia e sentia-se forte e indestrutível. Era dono de toda aquela região; era dono de todas as regiões que se estendessem para lá dela.
Uma chuva miudinha começou a cair.
Os anjos choravam. Deus, esquelético e macilento, agonizava. Não sabia justificar aquela derrota. O amor e a gratidão perdiam para a ganância e má-fé. E isso era a sua maior derrota. Fora criador de todas as águas, todas as plantas e todos os animais; criara o homem e a mulher, as rochas e a areia, os seres minúsculos e gigantes. Amara Noé, filho de Lameque, filho de Matusalém, filho de Enoque, filho de Jarede, filho de Malalel, filho de Cainan, filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, seu primogénito. Amara-os a todos e era destruído por Nimrod, seu descendente, sangue da sua fé, carne das suas esperanças. Tossiu, tentando erguer-se. Queria gritar e impedir que ele subisse. Nada daquilo estava escrito. Os homens deveriam ser castigados pela desobediência, e apenas Ele tinha esse poder. Nenhum homem seria capaz disso, sem acabar com a misericórdia e paz. O mundo seria o próprio inferno. A construção daquela torre tivera, inicialmente, um lindo propósito. Deus também queria sentir-se perto dos filhos do homem. Porém, a cobiça de Nimrod fora maior. Deus vivia de amor e esse deixara de existir nas portas da terra. Deitou-se, derrotado. Fechou os olhos e abriu as mãos. Os anjos caíram num pranto.
A chuva era forte: a mais forte alguma vez sentida em terras de Senaar. Os reis estavam encharcados pela água que entrava pelas inúmeras janelas abertas, e os transportadores já não conseguiam subi-los na liteira. A água transformava a terra numa lama líquida, que galgava pelas ruas mal construídas da aldeia. A população afastou-se das saias da torre, com medo que os seus quatro anos de edificação não tivessem sido bem arquitetados. Em vinte minutos, o lamaçal já atingia a barriga dos homens. Crianças eram engolidas pelas lágrimas ferozes dos anjos que choravam a morte de Deus. As mães sofridas berravam na tentativa de encontrar os corpos esmiuçados dos filhos, que eram esmagados pelos tijolos que começavam a cair da torre. Os homens que transportavam Nimrod caíram de joelhos perante a força da chuva. A natureza era mais forte que a humanidade. Semíramis escorregou da liteira e sentou-se num dos degraus, abrindo as pernas, e gritou.
— Vai nascer! — Procurou pelo marido, encontrando-o desnorteado, à cata de um lugar por onde subir sem ser atropelado pelas pessoas.
Mais de metade da população percebeu que fugir não era a solução. A torre seria suficientemente alta para proteger de qualquer inundação, por maior que fosse o fluxo de água. Apostados em salvar a vida, voltaram para trás e tentaram nadar pela água castanha. As portas das torres eram largas e as janelas, bastantes para receber as gentes desesperadas. Semíramis segurava a cabeça do filho enquanto obrigava o corpo a expulsá-lo. Nimrod galgava as escadas, sem recuperar o fôlego. O topo estava perto e, lá em cima, poderia gritar contra Deus e recuperar o seu legítimo poder.
A criança chorava.
Os anjos choravam.
Deus agonizava nos últimos suspiros.
O nível das águas subia.
Semíramis olhou para o menino e pestanejou. Era a criança mais linda. Do seu coração, transbordou amor: amor, e cuidado, e preocupação. Não queria perdê-la; não podia perdê-la. A simples ideia de a ver afogar-se nas águas raivosas de Deus deixava-a agoniada. E mesmo que morressem os dois, mãe e filho, não queria imaginar uma vida sem o ver crescer e tornar-se homem. Ajoelhou-se, embalando a criança nua. Os olhos marejados elevaram-se ao céu. Agarrada ao menino, desesperou-se.
— Deus! Meu Deus! Guia-me. Por favor, não deixes que alguma coisa aconteça a Tamuz. — Decidiu-se pelo nome. — Imploro-Te, rogo-Te, Deus Misericordioso. — Batia nas costas do filho, suavemente, enquanto se movimentava para frente e para trás. — Deus, Meu Deus!
Diante daquelas súplicas, algumas mulheres ajoelharam-se ao lado da rainha e iniciaram as suas preces. Pediam pelos filhos, afogados lá em baixo, que conseguissem nadar, encontrar um refúgio, sobreviver. Eram agora dezasseis mulheres e três homens, envolvidos por uma fé: a fé de quem já perdeu tudo e mais nada lhes resta.
Tamuz chorava.
Os anjos choravam.
Deus abriu um dos olhos e sentiu a carícia de uma luz quente.
O nível das águas subia.
Yiskah aproximou-se de Semíramis e ofereceu-lhe um abraço. Choravam, agarradas, com o menino entre elas, e pediam numa voz miudinha e melodiosa, quase em coro. Outros homens se aproximaram e caíram sobre os joelhos. Tamuz era o centro daquele oratório, e sabiam todos que era graças a ele que Semíramis rogava pela sorte da população.
Tamuz deixou de chorar.
Os anjos acalmaram o pranto.
Deus estava de pé, com os braços abertos e recebia o divino Espírito Santo.
O nível das águas estagnou.
Nimrod alcançava o último degrau. Abriu a porta do refúgio e escondeu-se. Seria o único a salvo, pensou, e deixou escapar um sorriso.
— Deus! Meu Deus! Guia-nos. Por favor, não deixes que alguma coisa nos aconteça. Imploramos-Te, rogamos-Te, Deus Misericordioso. Deus, Meu Deus! Socorre os nossos filhos inocentes — gritava a população.
Os anjos, exaustos, desapareceram numa nuvem de pó dourado. O rosto de Deus enchia-se de vida enquanto uma fé inabalável alimentava as suas veias. Afastou as nuvens negras e ficou diante da torre maldita. Dentro do seu forte, Nimrod escondia-se, sentado no chão, entre uma parede e um móvel. O Omnipresente inspirou e soprou. Os tijolos separaram-se, um por um, como penas desfeitas, voando para longe de toda aquela agitação. Nimrod foi erguido em direção ao sol. A pele borbulhava, rebentando em secreções e sangue. Ele berrava, mas a voz já não se ouvia. Desapareceu. A lama foi sugada pelas terras novamente secas. As crianças levantaram-se, nem feridas nem traumatizadas. A torre desmoronou-se sem magoar ninguém. Era como se nunca tivesse existido. Semíramis embrulhou Tamuz nas suas vestes rasgadas e limpou-lhe o rosto.
— Essa criança é um enviado de Deus — disse uma mulher, entre um sorriso e um beijo ao filho.
— Tamuz, Tamuz, Tamuz… — Iniciaram uma ovação. — Celebraremos o dia 25 de Dezembro de agora em diante.
A rainha Lua caminhou por entre os habitantes e levantou o filho, rodando-o devagar.
— Seremos um povo unido. Falaremos a mesma língua e multiplicar-nos-emos para lá das terras de Senaar. Nunca mais negaremos a palavra de Deus. Nimrod está morto. Tamuz será rei, filho de Noé, de Lameque, de Matusalém, de Enoque, de Jarede, de Malalel, de Cainan, de Enos, de Sete, de Adão, de Deus Pai, e, enquanto esperamos pelo seu crescimento, eu assumo a responsabilidade por estas terras.
«Então, disse-me: “Viste, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, cada um nas suas câmaras, pintadas de imagens? e eles dizem: ‘O Senhor não nos vê; o Senhor abandonou a terra’”. E disse-me: “Tornarás a ver ainda maiores abominações do que as que estes fazem”. E levou-me à entrada da porta da casa do Senhor, que está da banda do norte, e eis que estavam ali mulheres assentadas, chorando por Tamuz. E disse-me; “Viste, filho do homem? verás ainda abominações maiores do que estas”.»
(Ez 8,12-15)
Relembramos que o número dois da revista anual do Clube ainda está disponível e pode ser encomendado através do email clubedasmulheresescritoras@gmail.com.




Parabéns por mais uma edição do clube. Que este espaço continue a crescer e, quem sabe, abra também as portas para escritoras de outras nacionalidades.
Deixo o convite para a minha última publicação, em que conto os bastidores de ter vencido o SLAM de novembro no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian:
https://ericaalcantara.substack.com/p/slam-no-cam-como-fui-parar-num-palco
Três textos tão singelos e tão profundos que me fizeram arrepiar! Li logo após o Natal e senti nas palavras a emoção de refletir sobre o fim e o (re)começo